Era um dia um sacerdote, que pregava a caridade.
"- A caridade, dizia ele, deve ser exercida sempre e apesar de tudo"
Vai um caboclo, que o ouvira atentamente, perguntou-lhe depois do sermão:
"- Ó sôr padre, é caridade enterrar os mortos?"
"- De certo, respondeu o pregador; é uma obra de misericordia".
E o caboclo saiu, matou uma raposa e foi esperar o sacerdote na estrada; quando sentiu que ele se aproximava, pôs a raposa no meio do caminho e escondeu-se no mato. O padre ao topar com ela e observando que estava morta, ajoelhou-se, e cavou no chão, enterrou-a e, depois de dizer uma sentença religiosa, seguiu o seu caminho. O caboclo, assim que o viu pelas costas, correu à sepultura, sacou a raposa e, ganhando por um atalho, foi mais adiante e jogou com ela ao meio da estrada, antes que o pregador tivesse tempo de chegar; este, porém, não tardou muito e, ao ver de novo uma raposa no caminho,fez o que fizera da primeira vez, enterrou-a, mas sem se ajoelhar, nem repretir a sua máxima latina. O caboclo deixou-o seguir, tomou de novo da raposa e foi depô-la mais para adiante na estrada; o padre ao topá-la, enterrou-a já de mau humor e prosseguiu receoso de encontrar outras raposas mortas. Todavia, o caboclo não estava ainda satisfeito e repetiu a brincadeira; mas, desta vez, o padre perdeu de todo a paciência e, tomando a raposa pelo rabo, lançou-a ao mato com estas palavras: "Leve o diabo TANTA raposa morta!" Então ocaboclo lhe apareceu e disse: "- Já vejo que enterrar um morto é obra de caridade, mas fazer o mesmo quatro ou cinco vezes é nada menos do que uma formidável estopada!" Ao que o sacerdote respondeu que, desde que houvesse abuso da parte do protegido, era natural que o protetor se enfastiasse...
[trecho de O Coruja, de Aluisio Azevedo]
A caridade é muito facil de ser exercida e chega a ser até consoladora e divertida, mas só enquanto não se converte em maçada.
Qual é então a verdadeira caridade? Apenas aquela que nos traz prazer ao ego?
Pensem nisso ...
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